segunda-feira, 28 de julho de 2008

Psicologia pra quê?

Ainda me lembro do espanto de muitos quando o Espírito de Joana de Ângelis começou a escrever obras de cunho psicológico através do médium Divaldo Franco. Ouvi coisas do tipo: "Qual será a intenção real deste espírito...", "Pra que relacionar Psicologia com Espiritismo? Díficil de ler, qual a utilidade?". O tempo demonstrou que Joana conhecia a necessidade do público, pois tais comentários partiram de pessoas que se revelaram melindrosas, neuróticas e ciclicamente capazes de causar todo tipo de problema de relacionamento. Se afastavam inconcientemente destes livros pelo risco de revelarem o que ignoravam, no caso, a própria sombra. Utilizo o termo no sentido junguiano, isto é, como o aspecto negativo da personalidade. Este aspecto quando não reconhecido em si mesmo, é projetado e observado pelo indíviduo como se fossem defeitos do outro. Não foi difícil perceber que certas pessoas "boas demais" eram demasiadamente irrítaveis e que os colaboradores de "bom-senso" tomavam todo cuidado para não "incomodá-las". É evidente que temos sempre um olhar complacente para tais atitudes, afinal, a pessoa é "tão boa", faz tanta "caridade", "não vale a pena criticá-la por esses momentos infelizes". Para encobrir os efeitos negativos utilizava-se a expressão "energia". A pessoa não foi grosseira, estúpida ou autoritária, mas sim agiu "com energia". Ninguém medita no efeito disso a longo prazo: o sujeito começa a acreditar que não comete mau algum.
Me recordei dessas experiências após ouvir a dor sincera de um amigo evangélico, que assim se expressava: "Como pôde ser tão falso durante tanto tempo? Encobrir tamanha monstruosidade com atos de caridade?" Ele lamentava o fato do lider maior de sua comunidade religiosa ter sido preso, depois de descoberto seus crimes de pedofilia. Ficou revoltado porque tentei compreender o comportamento do religioso americano, a quem se referia. Afinal, argumentei, que fez este homem senão considerar a bondade como sendo um conjunto de atos imitáveis, um pacote de comportamentos exteriores, gestos sem-fim de dedicação à sua comunidade? Pensou haver vencido o mal porque atribuiu um nome para ele. Há espíritas que fazem o mesmo, só que ao invés de "diabo" se referem a obsessores ou pessoas problemáticas, de quem devem se afastar. Há os que acreditam que egoísmo, orgulho e luxúria são pecados dominados porque conseguimos apontá-los no outro. Pois esta mesma comunidade ingrata se esqueceu do quanto seu líder sufocou conflitos íntimos, abafou silenciosamente o "demônio" dentro de si e acreditou plenamente nos elogios do público para conseguir direcionar sua energia. Quem pode negar o bem que adveio disso? Para se conhecer, e talvez evitar a própria queda, teria de "perder" um tempo precioso atentando para seu mundo inconsciente, que devia se expressar através de fobias e irritações, além de sonhos perturbados e recorrentes. Provavelmente entraria em dilemas profundos, o que amainaria sua produção social. Perderia prestígio no presente para ganhar equilíbrio no futuro. Mas como a psiquê tem suas próprias leis, uma hora o religioso foi pego em seu crime compulsivo, numa situação que ele próprio devia lamentar todos os dias, por estar muito acima de suas forças conseguir evitá-la. Não sabia que, no campo psicológico, todo extremo provoca seu contrário, tornando toda dedicação cega a uma virtude um convite para a devassidão oposta.
Meu amigo ouviu assustado e rejeitou sumariamente a interpretação, apesar de estudar psicologia. "Aquele homem é uma víbora, um falso profeta, um lôbo em pele de cordeiro" - concluiu. E pensei comigo: "Realmente, psicologia para quê, se já temos palavras tão "evangélicas" para julgar nosso próximo?"

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