domingo, 20 de julho de 2008

Não sei, só sei que foi assim...

A expressão é conhecida por todo brasileiro graças ao divertido personagem de "O Auto da Compadecida" que expressa sua compreensão dos acontecimentos através desta frase: "Não sei, só sei que foi assim...". Sempre que lembro do dito fico a pensar como o mesmo reflete uma postura típica de acomodação que prevalece em muitos.

Jung cita um exemplo simples, mas significativo, de como o ocidente deixou de lado questões relevantes ao atribuir todas as respostas à Causalidade: Dois homens se encontram num barco. Ambos pescam calados, concentrados na atividade. Bruscamente um crocodilo os assalta, atacando e levando à morte um dos pescadores. Mas que azar! diria o homem ocidental. Que fatalidade! Explicação: os dois estavam na mesma condição, havia uma probabilidade de 50% daquele pescador morrer. A Causa, portanto, foi apenas a fome do bicho. Mas Jung nos pede atenção à resposta do primitivo para a questão: porque o crocodilo comeu aquele homem e não o outro? Explicam dizendo que um espírito tomou o animal para matar aquele homem, isto é, atribuem o ocorrido ao fato daquela pessoa estar amaldiçoada por um feitiço local. Podemos rir, na nossa ignorância, desta resposta "primitiva", mas temos de confessar, ao menos, que se trata de uma tentativa de explicação para o problema que ficou de lado, isto é, a fome do animal é apenas uma dos aspectos da tragédia e não explica a totalidade do acontecimento.


Recentemente assisti um vídeo de uma filmagem real onde um sujeito atira no outro até descarregar o revólvel. Este consegue evitar todos os tiros se escondendo, através de esquivas, atrás de uma árvore. Detalhe: a distância entre os dois era menor que dois metros. Temos, ao menos, que questionar, à maneira do homem primitivo, se neste caso a pessoa não estava "abençoada," pois conseguiu evitar uma morte mais que provável sob qualquer perspectiva.

O homem culto rí discretamente dessas explicações "infantis", mas que resposta ele dá para sua esposa quando seu filho morre com uma bala perdida dentro de sua própria casa? Que era uma probabilidade? De que forma ele se consola ao ver que sua filha foi morta e estuprada depois de ser deixada a uma quadra de casa vindo da escola? É evidente que ninguém busca apenas culpados (?) por essas situações e a procura pelas religiões comprova a necessidade comum de um "algo mais". Mas mesmo os religiosos insistem em colocar no ombro dos homens a culpa de todas as tragédias, como se isso resolvesse o problema. Argumentam: "Foi negligencia, imprudência, irresponsabilidade... Se você está na Terra então está sujeito a todas as vicissitudes deste planeta, tudo serve como aprendizado". Me pergunto: "Que tipo de justiça existe em sofrimentos iguais para pessoas diferentes?";"Será que não posso evitar certas situações por fazerem parte de uma organização geral, ou será que as situações só ocorrem dessa forma porque eu sou um dos seus componentes?" Prefiro pensar que nem as religiões e nem a ciência estão olhando com a devida seriedade para estes dilemas. Mais sábios seriam guias e cientistas se assumissem ignorância e respondessem com humildade: "Não sei, só sei que foi assim..." e retomassem as perguntas "ingênuas" e "inconvenientes", mas que se mostram primordiais toda vez que a vida dá uma rasteira em nossa razão fria e demonstra o quanto as coisas não estão sob o nosso controle só porque achamos ter encontrado uma explicação lógica para elas.

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